O mês de março começou diferente este ano. Entre os jardins da escola e de casa, dezenas de lagartas se espalhavam pelas folhas, despertando o fascínio do meu filho, apaixonado por tudo que se move, rasteja, voa. Ele decidiu criar um pequeno ecossistema em um pote transparente, com folhas, galhos e cuidado diário. Acompanhou, com olhos curiosos e coração palpitante, a transformação das lagartas em casulos — e, por fim, em borboletas. O momento em que as asas coloridas começaram a bater foi mágico… e também doloroso. Ele não queria que elas fossem embora.
Enquanto observava meu filho nesse processo, me dei conta de como a metamorfose fala sobre nós. A cada casulo que se abria, eu via ali não só uma borboleta, mas também as inúmeras versões de nós mesmos que nascem, vivem, e, às vezes, precisam voar — mesmo quando não queremos deixá-las partir. Existe um momento de espera, de silêncio, de recolhimento… como se o mundo parasse por um tempo até que a transformação se completasse. E quando ela acontece, quase nunca somos os mesmos.
Essa história me lembrou dois livros sobre metamorfose, que, embora opostos em tom, se complementam. O clássico infantil The Very Hungry Caterpillar encanta com simplicidade e nos mostra que crescer é um processo de transformação constante, de descobertas e aprendizados. Já A Metamorfose, de Franz Kafka, revela uma mudança drástica, inesperada, muitas vezes não compreendida — exatamente como tantas que vivemos ao longo da vida. Seja pela perda de alguém, o nascimento de um filho, uma demissão, um novo amor, uma mudança de cidade ou apenas uma decisão corajosa… mudar dói, mas é inevitável.
Há metamorfoses que escolhemos. Outras nos atropelam. Algumas são doces e nos enchem de cor. Outras nos deixam sem chão. Mas todas, sem exceção, nos moldam. E, às vezes, como no caso das borboletas do meu filho, precisamos deixá-las ir — mesmo sem querer. Porque elas não pertencem mais àquele espaço seguro que criamos, assim como partes de nós também precisam ganhar o mundo, experimentar novos voos.
O mais bonito dessa experiência foi ver como meu filho, ainda tão pequeno, aprendeu que amar também é deixar partir. E que as transformações fazem parte do ciclo da vida. Nós também passamos por isso. Nos recolhemos em nossos próprios casulos emocionais, buscamos força, e quando estamos prontos, abrimos as asas. Cada mudança nos reconstrói, nos revela, nos aproxima do que realmente somos. Afinal, a grande pergunta de todas as metamorfoses — e de todas as fases da vida — continua a mesma: quem somos nós agora?